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O Abraço de Morpheus

Momento perfeito é o nó que ata os fatos da vida. As pontas soltas se conectam, os tempos se dissolvem em eternidade e sintonia. Instante ...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pra quem tem medo...

Para quem tem medo de amar,
um amor vadio deve bastar.
Para quem teme se deixar levar,
uma prisão há de agradar.

Para quem não pode aceitar
a sinceridade há de machucar.
Para os covardes, fortaleza,
para os livres, eterna beleza.
Sally Morryson
20.01.2010

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Enfim




- Onde estou? 
- Em minha mente.
- Mas como?
- Cala a boca! - disse ríspido - Não consegui te salvar, lamento. Mas ele não vai se safar disso, agora preciso me concentrar.

Ela silenciou a consciência superficial enquanto buscava entender. Por seus olhos enxergava hordas inteiras avançando contra esse corpo que não era o seu.

Tentou se lembrar de suas últimas recordações antes de se perceber ali.

Ela estava dentro da muralha com seus companheiros de batalha, retornando de uma empreitada bem-sucedida, não sabiam a localização dele e o aguardavam quando o alarme soou.

Todas as portas foram fechadas, o forte dentro das muralhas era pequeno, mas capaz de acolher a todos, no entanto ela estava entre os guardiões daquela entrada e o escutou chegar, reconheceu seus sons e sua velocidade, conforme ele atingiu a porta, ela abrira. Os inimigos avançaram, eles atacavam juntos em meio à multidão quando ela foi esfaqueada e, depois da sétima perfuração, passou a ser alvo fácil para dardos, flechas, espadas, e só pôde buscar seu olhar uma última vez antes do corpo cair, inerte.

Foi exatamente nesse momento que se viu jogada ao universo feito poeira estelar, sentiu-se dissipar, sua consciência se espaçando e se distanciando, conectando-se à experiência das folhas caindo lá perto, correr como o vento, brilhar como raio de sol, enxergou as frentes inimigas, sentiu onde era a passagem precisa que não haviam encontrado, e só então ela percebeu sua unidade de consciência retornando e se viu em outro corpo, o dele.

Ela sequer saberia controlar esse ser capaz de se curar instantaneamente a cada investida, de se transformar nas mais terríveis criaturas, ora peludo com garra e chifre, ora aracnídeo com pinças e veneno, ora guerreiro humano. Em um piscar de olhos, 500 metros quadrados da frente inimiga estava devastada, ele piscava para que ela não visse suas atrocidades e sequer olhava pra trás.

Viu seus passos diminuir o ritmo.

- bom mimi.
- mas... - sentiu um bocejo interno, não pôde resistir à quietude existencial que lhe fôra imposta.

Ao retornar, havia um ser decaptado, estava acabado, o grande menino mimado que criara tudo como um mero joguete para se alimentar da energia de vida e morte fôra derrotado.

O poder da criação foi segmentado pelo filho que lhe decepou a cabeça, após reviver seus companheiros e recriar sua amada guerreira cuja essência havia absorvido para que não se perdesse no cosmo.

domingo, 18 de março de 2018

Lamento de um algoz

Lamento a violência
Abusos e desusos
Manipulações
Para distanciar.

Quero libertar
Mentes
Emoções
Espíritos
A humanidade

Livre dos outros
E de si mesmos
Prontos a voar
Ultrapassar muralhas
Ser tudo

Competência
Vem da capacitação
Como saber
Sem tentar?

Que medo é esse?
A queda é livre
Inevitável caminhar.

Então, por quê?
Falta enxergar
Todos os outros
Fluírem antes?

Pioneiros,
Geração que explora
A mata fechada
O mar turbulento
O deserto árido
O vento e a pressão

Abrem caminho
Navegam
Superam
Voam.

Não quero eu
Ser sua âncora
Senão raiz
A lhe nutrir.

Apenas mais uma
Raiz.

Não se apegue.
Ou serei
Novamente
Algoz.

Permita-me
 F ~ L ~ U ~ I ~ R
16.03.2018

sábado, 7 de outubro de 2017

Artista

Sou artista
Sem arte ou dedicação
Dedico à escrita
Minha paixão.

Sou escritora
Sem palavras e ritmo
Ressoo o descompasso
Do meu coração

Sou herdeira
Da mais bela flor
de cerejeira
Efêmera como a dor

Sou a brisa que leva
Pétalas e quimeras
Do imaginário

Sou ventania
Quem me dera
Apenas um canário.

07/10/2017

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Abraço de Morpheus

Momento perfeito é o nó que ata os fatos da vida.
As pontas soltas se conectam, os tempos se dissolvem em eternidade e sintonia.
Instante em que sincronia, harmonia, intensidade e plenitude se concretizam.
É o céu na terra.

Em uma tarde de domingo, raios de sol outonais iluminavam a paisagem de folhas carmesins e flores despetaladas pousadas sobre telhas perceptíveis apenas por pequenas frestas da janela fechada.
Clara tentava assimilar o que acontecia, ainda com Martin entre suas pernas. Seu mundo se despedaçava diante da acusação:
- Como pôde? Durante meu sono!
Teria ela enlouquecido? Imaginara ele corresponder?
Observava os olhos de seu interlocutor em busca de resquícios da alma que a acompanhava segundos atrás, em vão.
Nunca se sentira tão exposta.

Conversaram, porém sua mente transtornada se debatia entre o insano ocorrido e a sensatez usual, distante da realidade.
Caminhou. O ar lhe faltava... Como pude violar nossa amizade? Como, em sã consciência, permiti-me tal desatino?
Talvez digam ser compreensível dada a intensidade da paixão represada, porém nada justifica tamanha infração. Não se copula sem o consentimento de seu par.
Com o coração em frangalhos, não conseguia pensar. Doía-lhe a condenação à ausência dele. Feria-lhe ainda mais a traição contra seu afeto e seus ideais. Clara jamais se aproveitaria da fragilidade dos outros para satisfazer um capricho.
As lágrimas não rolavam, magoavam-na até os ossos, estilhaçavam seus sonhos e esperanças.
Gostaria de que fosse apenas um pesadelo.
Não era.
Anoitecia.

Em tormenta, perdia-se de si e seu farol se apagara. Pela primeira vez em tantos anos, quando mais lhe era imprescindível, a complacência de seu cúmplice lhe faltava.
Ele estava igualmente atordoado. Examinava os detalhes que os teriam conduzido àquela conjuntura. Angustiado, expusera sua indignação e decepção violentamente, culpando-a.
Culpa à qual ela abraçara sem cerimônias. Somente com o tempo foi capaz de esquadrinhar o trajeto do mito ali concretizado.

Fora um beijo inesperado em sua face que transformara sua admiração por seu mestre em paixão, perfurando-lhe o peito.
Ele que diante de sua confissão se sentira lisonjeado e retribuíra exaltando seu talhe singular.
Episódios remanescentes da semana anterior à primeira de suas despedidas.
O afeto, como um conto, intensificou-se e tomou forma durante o tempo engavetado, tornando-se indomável.
Com o retorno do ser amado, a dama que o esperara constatou que essas recordações não eram compartilhadas após se declarar.
-Por que eu? - fora a resposta de Martin.
Ela não sabia, mas essa não era uma resposta cabível. Então, mapeou suas motivações em seus arquivos emotivo-intelectivos e disse:
- Pois você é uma junção das qualidades dos meus ex-afetos.
- Então não sou eu, mas o que te lembro.
Mal atinara ele, ou não quisera considerar, que o passado era apenas um rascunho da imagem representativa da admiração, bem-querer, desejos, anseios de amor não realizados, guardados a sete chaves no coração feminino.
E ela tomara a questão mais como um desafio do que falta de reciprocidade.
A despeito da rejeição, aprofundaram o convívio.

As recordações dela amontoavam-se.
Um beijo no ombro como resposta à sua provocação sentada no colo dele, no assento passageiro da carona de um amigo.
Visitas ao café, torpor de suas horas vagas.
Eventos culturais, o erudito e sua pupila.
Filmes detestados, um bom programa ao lado dele.
Piromaniacos anônimos na exposição do Parque da Luz com companhias inusitadas.
Trilhas na escuridão pelo centro da cidade.
Sons revelados em palcos sem público.
Peregrinações infinitas sob a proteção de sua sorte.
Prantos noturnos apaziguados por ele a acobertar.
Noites de lamuria e sarcasmo, maldizendo relações recém rompidas.
Novos amores, ora seus, ora dele.
Jantares e coquetéis por presentes artesanais, trocas de olhares cúmplices.
Sorrisos instintivos se abriam com a mera possibilidade de contato, fosse virtual ou real.
Ele não se despedia, pedia-lhe que ficasse um pouco mais.
Abraçava-a repentino, retardando sua partida.
Foram tantos pequenos mimos mútuos, carências simultâneas,  dedicação involuntária, embriaguez.
Diálogos madrugada adentro entrelaçavam seus percursos, inconscientes das tramas do acaso.
Migalhas.

Pó jogado ao vento munido do perfume daquele que alimentava seu vício. Sua fixação aumentava, mimetizava seu estilo, sua fala, seus trejeitos, seus gostos...
- Pura ilusão.
Condenava-lhe a cada confissão.
Tateou, então, a realidade visceral do senso comum, no entanto ninguém satisfaria sua necessidade de o amar.

Por um tempo, resistira a suas manias, seus conselhos, seu bom gosto. Drinques e pratos cheios, picantes. Dança excêntrica numa estação de metrô, convite a juízes fugazes.
Cativaram-na suas aventuras, sua intensidade, seu carisma. Era a caricatura dos bons e velhos heróis incompreendidos. Um verdadeiro homem de letras e boêmio inveterado.
Sucumbira à carícia de sua voz, a seu estilo envolvente, a suas travessuras,  a seus toques quase involuntários, à sua sincronicidade.
Abandonara-se em suas mãos. Confiara-lhe suas mais belas aspirações sem que ele desconfiasse.
Tomara-lhe as amizades como fontes de pesquisa.
Perseguira-o, antecedendo seus passos a fim de mascarar.
Aceitava seu olhar crítico e coração poético, mas não seu cinismo e ar manipulador.
Negava a complexidade de suas diferenças. Ignorava as advertências.
Excedia-se em deleite.
Espreitava-lhe o delírio.
Inebria.

Deitaram-se lado a lado como de costume.
Aconchegaram-se nos braços um do outro, ela zela o sono dele.
Contempla-lhe a paz, o silêncio, a respiração, a pele, o aroma...
Odor incansável de suas cobertas, livros amarelados, tabaco, suavidade, calor.
Pescoço exposto, convidativo à overdose.
Inspira, suspira, paixão, utopia...
Utopia? Um beijo.
Imaginação?
Não, não é.
Lágrimas felizes, mãos trêmulas. Conquista etérea. Psique desgovernada.

Momento perfeito.

Sem hesitar, entrelaçam-se, ele a domina.
Ígneo desfecho de uma canção.
Volúpia de duas almas fundidas.

Toca o telefone.
Desconexão, distância.
Despertar.
- Como pôde? Durante meu sono!
- Como eu poderia saber de seu distúrbio?

Se lhe perguntarem novamente o que houve naquele crepúsculo, dirá:
-Adormecemos e sonhamos.
Pois estavam sós, se ambos recordassem, teria sido real. Nela agora habita a marca de Ícarus.
Quanto aos grãos em brasa com os quais se nutria enquanto ele estava alcoolizado ou sonâmbulo, ela abriu mão. Preferiu o abraço de Iemanjá, águas sóbrias para libertá-lo de sua moléstia.

A defasagem entre a magnitude do amor e a pequenez mundana impossibilita o arrebatamento sem extinção, o paraíso sem inferno. Esse mundo de duplos turva a verdade que aceita a coexistência de bem e mal, terno e rude, alma e corpo, sentir e pensar, vida e morte.
O vazio natural, misterioso e assustador como a efemeridade de um tufão, a ausência de egos e significados, é a lacuna onde reside a existência desse casal, imperceptível, indescritível, inominável.
Assim, a vida dela acontecia enquanto ele dormia.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Gratidão



Há lapsos nos quais cobramos amor.
Neles, esquecemo-nos de que o ato pleno e entregue é espontâneo e sincero. Disso advém sua leveza.
Quanto maior libertação e verdade, mais plena a felicidade conquistada.
Assim, expresso por esses atos absortos e inebriados pelo prazer de os concretizar, nossa melhor doação, o amor retorna.
A gratidão é a recíproca do amor.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Apresentações


Sou a amante.

Nego a fama de destruidora de lares, egoísta, mesquinha. Não vivo para destruir ninguém, apenas destruo o risco à vida, à felicidade, à verdade.

Não, o mundo não gira ao seu redor, não toma tudo de você para entregar aos outros. Você é quem perde! Você abre mão a cada escolha que leva à infelicidade dos outros.

Ratifico minha notoriedade como sedutora, posto que o mistério e a força da natureza e da vida fascina, deslumbra, atrai, parece enganar, mas apenas não obedece à lógica humana.

Sou amante da vida e da arte, da natureza e seus pequenos momentos, porém nem sempre os já aclamados e cantados, quase sempre um misto do que me antecede e do que sou.

Bem vindos ao meu mundo.

K.